Mostrando postagens com marcador texto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador texto. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Johnny vai à guerra


Gostaria que a tradução do livro tivesse acompanhado o tempo verbal do título original (John got his gun), título também de uma canção, que minha amiga Luciene cantou, quando lhe mostrei o livro (eu não conhecia a música).

Não vi o filme, mas, desde que ouvi falar, fiquei hiper-curiosa, pelo filme e pelo livro. E isso faz muito, muito tempo... Por isso, quando vi o exemplar nas Lojas Americanas por R$9,90, não hesitei e comprei.


Johnny foi à guerra (minha revisão poética) é impactante. A forma como o autor  escreve, absolutamente sem vírgulas, dá uma certa falta de ar na leitura, bem providencial, porque as falas se parecem afogueadas (foi o melhor adjetivo que achei para juntar "afogamento" com pressa e ao mesmo tempo sem lugar para chegar), e a gente precisa fazer um certo esforço para juntar as pausas do texto. Faz pensar no esforço do próprio Johnny, muito aquém do nosso, diga-se de passagem. A difícil tarefa de se comunicar uma vez que, aos poucos, vai percebendo que, na guerra, perdeu a audição, os braços, as pernas, a visão, o nariz, a boca! Só lhe restou o cérebro... O livro é muito bem construído, as memórias de Johnny refluem de uma maneira emocionante. Ele, por exemplo, não diz "nunca mais abraçarei", mas a gente sente isso quando lê a parte em que ele descobre que não tem mais braços. E assim, sucedem as perdas em apenas um resto de corpo com alma.



Duro foi conciliar os antitéticos otimismo e pessimismo presentes no livro. O livro se divide em duas partes, a primeira "Morrer" e a segunda "Viver". Foi considerado um libelo contra as guerras, a 1a. Grande Guerra, a 2a., e finalmente, a dos Eua contra o Vietnã. Mas, acima de tudo isso, é uma adaptação tenebrosa às circunstâncias aliada a uma insuportável vontade de viver. É impactante e excelente.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A Distância e o silêncio (Ele) (Ela)


Quando estava no multiply, nossa rede criou um projeto super criativo, Composição à vista de Gravura. A ideia era colocar uma foto e as mais diversas pessoas escreveriam contos inspirados nela. Só participei da primeira "composição". Mas foi logo com dois contos. A foto foi proposta por um dos contatos do multiply, Wagner.

Meus dois textos:

A distância e o silêncio (Ele)


Não... eu não estava só. Não naquele instante.
Naquele instante, silenciamos. Tanta coisa a ser dita e nada precisava ser dito.
Ela andava à minha frente. Parei. Não adiantava segui-la. O caminho já não era mais meu.
Ela continuou com seus passos lentos, leves e firmes. Não olhou para trás.
Por um momento, senti que ela hesitava. Mas não... era meu desejo que deixava seus passos ainda mais lentos.
Meus pés, presos a cada pedra, se despediam.
A cada pedra, a distância aumentava o meu silêncio.
Sim... estou só. Neste instante.


A distância e o silêncio (Ela)

Ele fala demais! Assim não consigo nem pensar...
Andávamos juntos e eu havia dito não pela primeira vez. Estranhamente, aquilo pareceu definitivo.
Ele continuava sereno, como sempre, mas não parava de falar.
Eu estava cansada, continuei andando. Ele ficou para trás. Eu andava lentamente e ouvi suas últimas palavras.
Percebi que andava sozinha. E que não mais o ouvia. Diminuí a velocidade dos meus passos, esperando uma frase, uma palavra, uma única palavra!
Nada ouvi.
Ao olhar para o chão, percebi que estava cada vez mais só.
Cada vez mais só.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Diálogo impossível: quem é Ken?

Diálogo clássico. Só poderia acontecer entre mim e meu sobrinho. Também não tenho como precisar a data, mas deve ter sido em meados de 2005.

Meu ponto de vista:
Titia, eu vou me fantasiar de quem no carnaval?(juro que ouvi uma interrogação)
É? De quem?
De quem? (continuo ouvindo uma interrogação)
Não sei, Paolo. De quem?
Quem usa um quimono laranja? (ah, que bom, ele está me dando uma dica sobre quem é...)
Ah, é? Quem é?
Quem!


A esta altura minha irmã está às gargalhadas. Finalmente eu entendo e Paolo também. Ficamos os três rindo do quanto sou sem noção. Aos poucos vou percebendo que sou alienada nos mais diversos momentos. Apesar de já ter visto meu sobrinho, Paolo, jogar Street Fighter algumas centenas de vezes, não me toquei que era do Ken que ele estava falando.




O possível ponto de vista do meu sobrinho:
Titia, eu vou me fantasiar de Ken no carnaval.
Ah, é? De Ken?
De Ken.
Não sei, Paolo. De Ken?
Ken usa um quimono laranja.
Ah, é? Quem é?
Ken!

Vida latente

Este texto é mais antigo do que 2005. Não tenho como precisar a data, mas foi inspirado em um dia do inverno carioca.






Sou um animal estranho. Os seres da minha espécie reconhecem-se entre si. Só sei que nasci entre eles porque vi fotos. Esse saber parece mais uma crença, afinal não tenho lembrança nenhuma desse passado. 

Aliás, mesmo vendo as fotos não consigo me reconhecer. Qualquer duplo meu dói. Passei a vida me sentindo e, hoje, descubro que tenho uma camada exterior. Uma casca? Não sinto como uma casca. Meus olhos dessa camada marejam. Abro os olhos. Não, não são meus olhos.

Semanas sem falar. Silêncio. Embora esse silêncio não signifique falta de comunicação. Será que minhas palavras vãs não necessitam de ouvidos? Dias andando pelas ruas. Ruas e calçadas. A cada rosto um ponto de interrogação: não os reconheço, ninguém me reconhece.

Serei eu um animal estranho?

Passo pelos caminhos, não me notam. Procuro minha caverna. Minha caverna está lá no alto, onde o ar é mais rarefeito. Subo a trilha, o ar vai ficando ralo e raro, vou tornando mais lenta minha respiração. Cada vez mais inspiro menos – e isso é proposital.

Finalmente, à minha caverna: meu metabolismo já está baixo o bastante para hibernar. Sou um animal estranho, apesar de não ver ninguém, peço licença para meu repouso.

Dormirei quarenta dias e, depois desse tempo, espero que apenas o sol esteja frio.

Unborn Love

O título é de um grande amigo, Marcio. A inspiração também nasceu de uma conversa lá pelos idos de 2005...

Alma minha, cicatriz...
fracasso que marca o
coração ferido
Quem se importa?

Eu fui uma criança
que morreu em mim
nasceu morta
quando você me morreu

Quem se importa?
Não se pode ver no escuro
No meu quarto, o vermelho sangra.
Se passa?
Não... a dor não passa enquanto eu não passar.

Se há fé

Em 2005, depois de profícua participação em uma rede multiply. Morri virtualmente e renasci com outra página. Até hoje, achava que os textos estavam perdidos. Hoje me deparei com eles. Essa sequencia de textos antigos estão aqui só porque gostaria de revisitá-los um dia.



Se há fé
em um grito que não se ouve
Se há fé
em alguém que não se vê
Há força
nos sussurros
Há vida
nas vigílias
Há sentido
nos chamados
E o invisível enfim se manifesta
E o inaudível enfim se torna ouvidos

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Mais Vital

Anteontem eu estava triste, ele disse: "Mamãe, você é mais bonita do que parece."
Ontem continuei triste, ele disse: "Vou dar um abraço que não solta mais nunca."
Não dá para continuar triste muito tempo, né?

domingo, 4 de abril de 2010

O olhar astrológico ainda é encantado - Lunik 9

Lunik 9 foi composta por Gilberto Gil em 1967, momento histórico em que se vivia plenamente a disputa pelo solo lunar. Disputa da guerra fria, que envolvia conflitos ideológicos, mas, sobretudo, predomínio de uma ciência exploratória em que a beleza da poesia parecia perder pouco a pouco a vez. Apenas parecia, porque este tipo de evento também servia para criações como Lunik 9.

Fred Góes comenta a música:  Em Lunik-9 - aparentemente um alerta a ingênua tríade "poetas, seresteiros, namorados" - compõe um veemente manifesto político a respeito das conquistas espaciais, faca de dois gumes dos tempos modernos, delineando em sua bem inspirada letra a guerra fria entre nações pela posse do desconhecido, já que o conhecido está inteiramente apossado: "Guerra diferente / Das tradicionais / Guerra de astronautas / Nos espaços siderais".

Lunik 9 faz parte do álbum Louvação, em que está presente uma música bastante conhecida, Procissão, que também fala das coisas do céu: Olha / Lá vai passando a procissão / Se arrastando que nem cobra pelo chão / As pesoas que nela vão passando / Acreditam nas coisas lá do céu / As mulheres cantando tiram versos / E os homens escutando tiram o chapéu.

Como alerta Fred Góes, Gil está atento àquela época às coisas do céu, tanto no sentido poético, quanto no sentido religioso, além de denunciar o sentido astronômico-científico-exploratório-conquistador. 



Luniks são sondas ou módulos lunares soviéticos, lançadas a partir de 1959. A Lunik 9, em 1966, foi a que primeiro pousou na Lua, dentre as Luniks, que, até então eram de sobrevôo ou de impacto. Aqui vemos uma lista das sondas interplanetárias e suas missões.

A canção de Gil, escrita no ano seguinte ao pouso da Lunik 9 na Lua, antes da chegada do homem na Lua, hesita entre a exploração e o encantamento. Vamos pensar a letra?

Poetas, seresteiros, namorados, correi
É chegada a hora de escrever e cantar
Talvez as derradeiras noites de luar

Momento histórico
Simples resultado
Do desenvolvimento da ciência viva
Afirmação do homem
Normal, gradativa
Sobre o universo natural

Sei lá que mais

Ah, sim!
Os místicos também
Profetizando em tudo o fim do mundo
E em tudo o início dos tempos do além
Em cada consciência
Em todos os confins
Da nova guerra ouvem-se os clarins

Guerra diferente das tradicionais
Guerra de astronautas nos espaços siderais
E tudo isso em meio às discussões
Muitos palpites, mil opiniões
Um fato só já existe
Que ninguém pode negar
7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, já!

Lá se foi o homem
Conquistar os mundos

Lá se foi
Lá se foi buscando
A esperança que aqui já se foi
Nos jornais, manchetes, sensação
Reportagens, fotos, conclusão:
A lua foi alcançada afinal
Muito bem
Confesso que estou contente também

A mim me resta disso tudo uma tristeza só
Talvez não tenha mais luar
Pra clarear minha canção
O que será do verso sem luar?
O que será do mar
Da flor, do violão?
Tenho pensado tanto, mas nem sei

Poetas, seresteiros, namorados, correi
É chegada a hora de escrever e cantar
Talvez as derradeiras noites de luar


Ora, se esse devaneio exploratório predomina, onde fica o encantamento? É disso que falamos. O olhar astrológico ainda é encantado. Esse avanço tecnologico, presente na musica de 1967, traz um olhar exploratório, conquistador. Para onde iremos sob o jugo desse segundo olhar? Que olha, mas não vê a destruição ao seu redor? O lixo estelar que estamos criando (satélites, sondas etc etc). Há uma cena em Wall-E, fantástica, quando ele sai da Terra e atravessa um monte de entulho orbitando nosso planeta, antes de chegar no espaço sideral. Até que ponto esse lixo estelar, de nossa responsabilidade, nos diz respeito ("aquilo que está em cima é como aquilo que está embaixo")?

O que acabei de escrever está mais para reflexões meio soltas, pois acabei de conhecer música, letra e som. Não deixem de ouvi-la. Está bem bonita. Além de Gil cantando, aqui, há uma versão de Elis, pode ser ouvida aqui. A propósito, adorei o site do Gil!

Aqui, o próprio Gil comentando sua composição:

"Recebi o impacto da notícia do pouso (suave, segundo as avaliações) do Lunik 9 na lua com orgulho e ponderação: estávamos conquistando o espaço, mas aonde isso ia dar? Não era só o cidadão que especulava, mas também o artista, com o senso da responsabilidade de ser locutor da sociedade junto à história. Eu tinha que falar no assunto por isso - e também pelo sentido de competição. Havia uma disputa olímpica entre nós. 'Provavelmente alguém vai fazer música sobre isso; deixa eu fazer logo a minha', pensei.

"Lunik 9 - uma suíte com vários andamentos e atmosferas, entremeada de narração, reflexões e advertências - é uma canção pretensiosa para o grau de informação que eu tinha a respeito, mas bacana também por isso: por vulgarizar, no sentido de divulgar, traduzir, em linguagem simples, um tema em princípio complexo. Nesse aspecto, é também apócrifa, em relação aos cânones da época - embora a bossa nova já tivesse dado a abertura para temas e termos (a Rolleiflex e outras coisas); e iniciática, em relação ao meu trabalho, do qual a questão do mistério do cosmos acabou se tornando uma linha mestra.

"Mas frente ao significado do que a motivou, Lunik 9 apresentava um contraponto conservador, uma atitude ecológico-reativa, um temor exagerado da tecnologia e de que se inaugurava a possibilidade de extinção do próprio luar - da luz interior da lua. À época eu gostei de tê-la feito, mas no período tropicalista eu já achava a música boba, ingênua. Hoje em dia acho relevante aquilo ter-me ocorrido: a inspiração nasceu de uma profunda assunção de um sentido trágico de meu tempo.

"Engraçado. No momento em que escrevi 'a mim me resta disso tudo uma tristeza só', era em Orlando Silva que eu pensava. Era a defesa parcial de um mundo - romântico - que eu identificava como o do Orlando Silva, símbolo e canto de um outro tempo ainda, anterior ao meu, à própria bossa nova."  


Lunik 9, de Gil, foi também analisada aqui, por Felipe Fortuna:  A poesia, uma vez mais, se viu atacada. Num artigo publicado este mês no jornal Libération sobre o Google Street View, mencionou-se que “de renúncia em renúncia, o tempo dos poetas estará morto, o instante furtivo dos bancos públicos” desaparecerá. Será mesmo assim? A percepção fatalista dos avanços técnicos e científicos omite que a poesia se nutre, em boa parte, das relações que as sociedades estabelecem ao longo do tempo. 

E aqui também tem uma ideia bem interessante, por Marcos Nobre: Pode ser um alívio a lua deixar de ser fonte de mistério, melancolia e projeções românticas. Ao sumir do horizonte sentimental, deixa de servir de ícone da decepção amorosa mais recente e leva com ela uma tralha poética que já não tem mesmo muito a dizer. Mas, de outro lado, esse despojamento de metáforas e mitos só pode ser vivido por alguém “fatigado de mais-valia”, por quem se encontra submetido à rotina alienante do trabalho capitalista. Aqui, o que parecia estar em via de desaparecer era o encantamento da natureza. De alguma forma, a própria ciência pretendia colocar esse encantamento a seu serviço, pretendia traduzir impulsos mágicos em termos de mistérios por desvendar.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Dogville

Este texto é ainda mais antigo. Também republicado na mesma data de A Vila, porque resgatei do outro multiply.

Sugiro observar com cuidado as duas primeiras semanas de Grace em Dogville e perceber as advertências dadas a ela por Chuck e, sobretudo, por Jason.



Análise do nome de alguns personagens:

Moses. Não é curioso que a vila se chame "Dog-ville"? E que o único cão seja Moisés? E que Moisés não consiga chegar à terra prometida e, neste filme, seja, talvez obrigado a reconstitui-la, absolutamente só? Não é curioso que o único personagem sem pecado seja também o único que resista à cidade (aos 40 anos de peregrinação, que na narrativa bíblica ele não resiste)? Também que seja o único testemunho da cidade?

Thomas Edison Jr. Não é curioso que o "pensador" da cidade seja homônimo do "inventor" da lâmpada? Que luz ele traz à cidade? Não é curioso que a sua tentativa de iluminar seja cada vez mais encoberta por trevas? Um iluminista às avessas, cujos escritos se limitam a pontos de interrogações e alguns monossílabos?


Grace. Não é curioso que Tom considere Grace, quando chega, uma dádiva (gift)? Que ela seja, entre todos, a mais bela, a mais solícita, a mais limpa? Graça, que espalharia alegria na natureza e nos homens. O que Grace ainda não sabe é que sua auto-imposição educativa, seu próprio teste, irá testar todos ali.

Achilles. Não é curioso que o herói grego, conhecido por invencível, com apenas um ponto frágil, seja exatamente o mais indefeso dos personagens? Se o bebê seria um Aquiles, imune à degradação humana totalmente presente em Dogville – no mundo – não há como saber. Seus irmãos mais velhos (também heróis) não resistiram à degradação. Por certo que não eram heróis tão ilibados assim...

Jason. Não é à toa que o menino tem esse nome. Quem conhece a tragédia de Medéia sabe quem é Jasão. Jasão, confundido com um traidor do rei, foi enviado com os argonautas para conquistar o velocino de ouro na Cólquida. Lá, Medéia se apaixonou por ele, ela que era feiticeira, abriu todos os caminhos para Jasão. Sabe-se que, sem Medéia, o herói não conseguiria cumprir a missão. Jasão, interesseiro, aceitou todas as "facilidades" oferecidas pela jovem. Mas não desposou dela. Levou-a para Corinto, onde lá, ela era estrangeira. Em Corinto, o rei deu a mão de sua filha em casamento. Jasão, sentindo que seu status subiria, abandonou prontamente a amásia. Medéia vinga-se. A história é longa, mas já vimos os escrúpulos do herói Jasão. Não é curioso que Jason seja a primeira pessoa que perceba todo o processo que Grace irá passar? E que, desse modo, seja o primeiro a usufruir diretamente dessa "exploração" a que Grace se submeterá?

Grace é fugitiva de gangsters. A cidade não a acolhe por boa vontade, mas pelo que ela poderia dar em troca. Acontece, e isso é percebido de maneira meio tácita, que a moeda dos moradores é muito menos valiosa que a de Grace. Grace começa a ajudá-los com supérfluos que aos poucos tornam-se necessários. O que os habitantes de Dogville lhe davam em troca? Quase nada no início, flagelos com o passar do tempo. As pessoas de Dogville sabiam bem que não tinham nada para trocar, e a relação entre Grace e Dogville não se deu de "graça". Ao tentarem ocultar que nada tinham para trocar, ao tentarem ocultar sua fraqueza, na mesma medida em que Grace ocultava sua arrogância, seu poder, eles assimilavam o poder e a arrogância de Grace e esta se submetia cedendo, porque eles eram "apenas seres humanos". Jason já havia anunciado isso, durante as duas primeiras semanas-teste de Grace. Quando Grace, tentando tornar-se útil, fora tomar conta dos filhos de Vera. Jason diz que sabe porque ela está ali e diz que ela poderá ficar lá, enquanto fizer o que ele deseja porque assim, sua mãe ficaria feliz. O menino é o primeiro a explora-la. Chuck ainda diz que não há nada que preste naquela cidade, e, se ela gostou da cidade...

São os dois recados das duas primeiras semanas. Será que o véu da sociabilidade só cai após quinze dias? Grace julgava que tinha feito amigos até então. Aos poucos percebemos que Jason catalisa todo o ser social daquela comunidade. Ele se torna o pequeno explorador, que age em seus próprios interesses. Nada muito diferente da atitude lenta e contínua de degradação do ser mais puro em ser mais impuro. Como diminuir o valor de troca? Como fazer com que eles continuem achando que estão dando muito? Mais do que Grace merece? Tornando-se "fortes" aprofundando a "fraqueza" dela. Mas tudo "verdadeiramente" acontece.

Fraco é quem precisa do poder para se dizer forte. Mesmo quem parece estar do lado de Grace, Tomas, é fraco. "É justo alguém ser culpado por ter tido medo?" Sempre temos escolhas, é verdade. Sobre que bases fundamos nossas escolhas? Dogville mostra que o mundo funda suas bases na fraqueza. Pensei que o tema de Dogville era o poder. Sob um certo aspecto é sim. Sob o aspecto de que poder é quantum de fraqueza...

sábado, 2 de janeiro de 2010

A Vila

Escrevi há muitos anos atrás, talvez tenha sido em 2004. Está publicado como 22/12/05, mas foi bem antes, pois eu refiz o multiply por essa época.

Atenção: esse texto contém spoilers!


"A Vila" nos deixa de algum modo incomodados. O gênero do filme, contudo, não é suspense. Nem se trata de mais uma crítica social. O que aparece, com mais relevância no filme, é a transformação simbólica, isto é, a iniciação e purificação rumo ao amadurecimento, em busca do conhecimento.Por isso, convido vocês a entrar no mundo das cores desta vila sui generis.

O amarelo que protege os habitantes da vila das criaturas ameaçadoras é um amarelo escuro, meio mostarda. Pelo simbolismo, o amarelo claro, o amarelo-ouro, o dourado, é cor que ilumina, aparentado ao sol, como o branco. Mas o amarelo do filme é fosco, escuro, como o preto. Cito do "Dicionário de Símbolos": "O amarelo emerge do negro, na simbologia chinesa, como a terra emerge das águas primevas". E também, o Zend Avesta, que tem os olhos amarelos "para melhor penetrar o segredo das trevas". Não é à toa, também, que se diz de quem tem medo: "amarelou". O medo é o artifício usado para impedir a iniciação da segunda geração. A cor amarela, em particular, é ambígua, e cabe muito bem na cor "protetora", posto que "protege" o que é o desconhecido, mas também encobre o engodo, o engano. Se amarelo é a cor da luz, é, aqui, uma luz embaciada.

O vermelho é a segunda cor mais importante da trama. É a cor proibida. E não é à toa, inclusive pelo simbolismo do vermelho. Atravessar o vermelho é atravessar para o outro mundo. O vermelho é a cor da iniciação e, no filme, era exatamente isso que era proibido aos jovens: amadurecer. Os mais velhos criaram um "mistério", as criaturas, mas não criaram ritos iniciáticos a esse mistério. Todos se submetiam no estágio mais primário, o medo. Uma vila que cresceu
infantilizada e parece desejar permanecer assim, exceto por Lucius Hunt, que insistentemente solicita autorização para ir à cidade. Mesmo Hunt, contudo, permanece infantilizado, observe-se como ele chora e assume a culpa pela invasão das criaturas em determinado momento. Além dele, vemos adultos que não cresceram, com sua expressão máxima em Noah. Mas também com a irmã de Ivy e seu futuro marido, que não suporta que lhe amassem a roupa.

É exatamente o adulto mais infantilizado que vai extrair do vermelho as maiores conseqüências. Lucius Hunt chega a dizer que Noah é puro. Se não houvesse a interdição, provavelmente não precisaríamos assistir ao rito de iniciação de Noah/Hunt/Ivy. O interdito atrai Noah e Lucius por perspectivas distintas.

O ditado popular costuma dizer que os caminhos para o conhecimento são o amor ou a dor. No filme, os dois caminhos são percorridos. Só o amor não bastaria para impulsionar a busca pela verdade. Foi precisa a dor, foi preciso estar no limiar entre a vida e a morte, para que o amor seguisse a senda aberta da dor.

O vermelho, sempre que é visto na vila, precisa ser enterrado. Não é interessante que a violência precise ser encoberta, que a dor precise ser escondida? Trata-se de um comportamento evitativo do conhecimento. Noah, Lucius e Ivy são os iniciados pelo sangue, a cor proibida, como repete Noah. O simbolismo do vermelho, no filme, foi invertido pelos mais velhos, por isso a iniciação precisa ser literal – e não simbólica. Só assim se poderia vislumbrar a liberdade. Noah, então, comete o crime, Lucius fica entre a vida e a morte, Ivy abraça Lucius
e, manchada de sangue, percorre toda a vila. Tudo se transforma após o ato trágico. O vermelho – o interdito – banhou a cidade. Só há um caminho agora, prosseguir na purificação. É isso que o mais velho percebe. Ivy fica responsável por buscar os remédios que salvariam a vida de Lucius.

Ivy empreende a "jornada do herói" e o simbolismo das cores está todo lá. No início a moça cega veste a capa amarelo-fosco e uma das primeiras coisas que lhe acontecem é cair num buraco e se sujar toda de lama escura – preta. Assustada, ela corre, se perde e, sem perceber, pára num campo cheio de flores vermelhas. É quando a criatura vermelha aparece. Ivy vai até o fundo da escuridão, mas, para sair do mal, do negro, ela precisa ser iniciada, atravessar o
vermelho, o sangue. Ivy, então, conduz a criatura à morte. Livre, ela pode agora se purificar e é o que faz, localiza o caminho indicado, tira a capa quase totalmente negra e, exceto por seus pés, ela está totalmente limpa. Neste momento, ela pode caminhar em direção à verdade, pois só a verdade pode salvar Lucius Hunt, ele que já tinha percebido que todos na vila guardavam segredos.

Quando Ivy consegue sair dos limites da vila, é que nós percebemos o tamanho da atrocidade para com aqueles jovens infantilizados. O fio de esperança está na surpresa de Ivy quando ela encontra o guarda que vai ajudá-la: "Eu não esperava por isso". Ela não esperava a bondade fora da vila. Se algo muda a partir daí? Como pensar que não?

Noah morre porque não percebe que entrar em contato com o vermelho é purificar-se, morre ao se fixar no pretensamente divino: ele sai de si, assume o mistério, perde sua identidade, não transcende – não há transcendência. Noah morre duas vezes: a primeira como humano e a segunda como pretensa criatura dos mistérios.

Ivy volta à vila renovada, transformada. Ela não usa a capa "protetora" no caminho de volta; retorna à vila tão limpa e clara como quando chegou à cidade. Ela sentiu a verdade.

Lucius só poderia ser salvo pela verdade. Ele é a materialização da jornada de Ivy, pois está entre a vida e a morte. O que morre aí? Acho que não preciso dizer. Há a morte para que outro Lucius Hunt possa viver. Assim como é outra Ivy Walker que retorna da "jornada do herói".

"A Vila" é um filme iniciático, da mais profunda transformação. Iludem-se os mais velhos que pensam que poderão manter a nova geração na ignorância após a jornada de Ivy e Lucius.

Morin assistiu à "Querida Wendy"? Von Trier e Vinterberg leram Morin?


Este texto foi escrito dia 25/03/2006.


O final de Querida Wendy não é redentor como o final de Dogville, apesar de toda a violência no clímax. Ambos os lados de Querida Wendy são extremamente parecidos. O poder já está nas mãos de cada um, sua arma. A diferença é que alguns têm o "direito" de ter o poder, outros, não.

Os adolescentes dão novos ares à sua vida insegura e marginal ao tratarem suas armas de um modo amoroso e até sexual. Embora o sexual aqui seja bem ambíguo, ao tomar a "arma" ora como alguém, uma pessoa a ser amada, ora como um mero objeto sexual, objeto possuído.

Vemos, durante o filme, o crescimento da auto-estima de cada um deles, assim como seus potenciais e desejos que vão tornando-se reais. Um a um, inclusive através do final pouco redentor.

Se vemos o filme como crítica (ao belicismo norte-americano, ao cinema americano), é porque ele é direto e absurdo. Não levanta uma bandeira. As armas estão bem colocadas no filme, só esse instrumento poderia trazer a auto-estima dos jovens e levá-los à morte. Com qualquer outro objeto, sua auto-estima poderia até ser recuperada, mas eles não morreriam com fama, glória e prazer. Sim, prazer. Esse é um dos temas do filme. Aquiles, à sua época não fora advertido dessa terceira possibilidade na morte abreviada. No filme, são jovens que morrem cedo, com fama, glória e prazer.

É um filme esquisito. A gente sai ambígua do cinema. Eu, em particular, fui assistir por puro acaso. Entrei no cinema sem nunca ter lido sobre o filme, sem nem saber do que se tratava. O filme é chocante e absurdo. E absurdamente divertido e tenso, leve e pesado. Ainda não decidi onde mais estava a violência do filme (afora a violência explícita das mortes etc e tals).


Além disso, o elemento "extra" ao clã formado pelos adolescentes - que criaram toda uma "ciência" no uso das armas - os considera loucos, tem uma relação muito mais "prática" com a arma, acaba participando do grupo por uma contingência, embora não os aceitasse, e, ao final, faz exatamente o que se esperaria de um dos membros. Esquisito? É sim.

Acabei de ler um capítulo do volume 1 do livro de Edgar Morin, "O Espírito do Tempo". Não pude deixar de ver associações com o filme. No estilo da minha amiga Luciene, coloco as citações do texto de Morin:

"Hollywood já proclamou sua receita há muito tempo: a girl and a gun. Uma moça e um revólver. O erotismo, o amor, a felicidade, de um lado. De outro, a agressão, o homicídio, a aventura. Esses dois temas emaranhados, uns, portadores dos valores femininos, outros, dos valores viris, são, contudo, valores diferentes. Os temas aventurosos e homicidas não podem realizar-se na vida; eles tendem a se distribuir identificativamente.
...
"Por um lado, irrigação da vida cotidiana, por outro, irrigação da vida onírica. Dois sóis gêmeos efetuam uma rotação, um sobre o outro. Um aquece com seus raios os fermentos que se desenvolvem na sociedade, o outro dá uma plenitude imaginária a tudo que falta na sociedade. As louváveis aventuras cinematográficas respondem à mediocridade das existências reais: os espectadores são as sombras cinzentas dos espectros deslumbrantes que cavalgam as imagens.
...
"A vida nãio é apenas mais intensa na cultura de massa. Ela é outra. Nossas vidas cotidianas estão submetidas à lei. Nossos instintos são reprimidos. Nossos desejos são censurados. Nossos medos são camuflados, adormecidos. Mas a vida nos filmes, dos romances, do sensacionalismo é aquela em que a lei é enfrentada, dominada ou ignorada, em que o desejo logo se torna amor vitorioso, em que os instintos se tornam violências, golpes, homicídios, em que os medos se tornam suspenses, angústias. É a vida que conhece a liberdade, não a liberdade política, mas a liberdade antropológica, na qual o homem não está mais à mercê da norma social: a lei.
...
"A liberdade infra se exerce abaixo das leis, nos "submundos" da sociedade, junto aos vagabundos, ladrões, gangsters. Esse mundo da noite é, talvez, um dos mais significativos da cultura de massa. Porque o homem civilizado, regulamentado, burocratizado, o homem que obedece aos agentes, aos editais de interdição, aos "bata antes de entrar" aos "da parte de quem", se libera projetivamente na imagem daquele que ousa matar, que ousa obedecer à sua própria violência.

"Ao mesmo tempo, a gang exerce uma fascinação particular, porque responde a estruturas afetivas elementares do espírito humano: baseia-se na participação comunitária do grupo, na solidariedade coletiva, na fidelidade pessoal, na agressividade em relação a tudo que é estrangeiro na vindita (vingança em relação ao outro e responsabilidade coletiva dos seus).
...
"A gang é como o clã arcaico, mas purificada de todo e qualquer sistema tradicional de prescrições e de interdições, é um clã em estado nascente. É o sonho maldito e comunitário do indivíduo ao mesmo tempo reprimido e atomizado, o contrato social da alma obscura dos homens sujeitos às regras abstratas e coercitivas. É por causa disso, aliás, que os jovens, tanto nos subúrbios, como os dos bairros elegantes ... tendem a constituir "bandos", clãs-gangs elementares, para viver conforme o estado natural da afetividade.
...
"O tema da liberdade se apresenta através das janelas diariamente abertas da tela, do vídeo, do jornal, como evasão onírica ou mítica fora do mundo civilizado, fechado, burocratizado... o tema da liberdade se inscreve no grande conflito entre o homem e o interdito. Qualquer que seja a saída desse conflito, e mesmo que o homem finalmente seja vencido ou domesticado pela lei, a revolta antropológica contra a regra social - o conflito fundamental do indivíduo e da sociedade - é colocada, e as energias do homem são empregadas nesse combate.
...
"Bofetadas, golpes, tumultos, batalhas, guerras, explosões, incêndios, erupções, enchentes assaltam sem cessar os homens pacíficos em nossas cidades, como se o excesso de violência consumido pelo espírito compensasse uma insuficiência de violência vivida. Fazemos em toda segurança a experiência da insegurança, isto é, ainda da liberdade, pois "o homem livre é necessariamente sem segurança", como disse Eric Fromm. Fazemos pacificamente a experiência da guerra. Fazemos passivamente a experiência do homicídio. Fazemos inofensivamente a experiência da morte. É preciso insistir nesse último ponto: não é só pela necessidade de fazer a experiência do homicídio que existe a vilência, é também pela necessidade de viver a morte - de conhecê-la.
...
"Um problema central permanece: há um fundo de violência no ser humano que precede nossa civilização, qualquer civilização, e que não pode ser reduzido definitivamente por nenhum dos modos atualmente conhecidos pela civilização. A civilização é uma fina película que pode solidificar-se e conter o fogo central, mas sem apagá-lo. A civilização do conrorto pacífico, da vida sem riscos, da felicidade que quer ignorar a morte será que constitui uma crosta cada vez mais sólida abaixo das energias dementes da espécie? Aqui a resposta ainda é dupla. Se, de fato, a superfície se endurece e torna a se fechar sobre o fogo central, então a pressão interna de decuplica... todas as experiências nos provam que ninguém está definitivamente civilizado."


sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Agora International Website - Cornelius Castoriadis


Mais um pouco de história.

A dissertação de Mestrado que escrevi abordou o pensamento de Cornelius Castoriadis. Entre 1998 (ano que defendi) e 1999, publiquei dois artigos sobre o autor. Descobri, faz algum tempo, um website que direciona tudo que foi publicado na internet sobre Castoriadis em várias línguas e meus artigos estão citados lá.

Os artigos são A apropriação do "conceito" grego de Caos no pensamento de Castoriadis e Aspectos da criação no pensamento de Castoriadis.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Jerusalém e o simbolismo do Centro do Mundo


Texto de uma amiga e colega, Maria Dulce Figueiredo, sobre Plutão em Capricórnio, publicado na Constelar.

Parabéns, Dulce!

"A presença de Plutão em Capricórnio coloca em questão o simbolismo da pedra e a tradicional concepção do Axis Mundi, o eixo do mundo que conectava o homem ao Cosmo. Estamos prestes a perder a referência do sagrado?

Este artigo sintetiza palestra proferida pela autora em evento conjunto realizado pela CNA e por astrólogos do SINASPE em Recife, em junho de 2008. A partir de uma sugestão da astróloga e professora de Filosofia Martha Perrusi, todos os palestrantes desenvolveram temas relacionados ao simbolismo da pedra e de sua destruição, em alusão ao ingresso de Plutão em Capricórnio."

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Comentando o retorno de Marte

Cá Roman disse em seu artigo sobre o retorno de Marte:

"O primeiro retorno Marte se torna um grande foco de energia para algumas crianças, especialmente aquelas que têm um Marte forte no mapa natal. Em uma pesquisa que está sendo desenvolvida, 40 mapas de crianças de ambos os sexos já foram analisados. Percebeu-se que aquelas que possuem um Marte angular, em exílio, ou fazendo aspectos ptolomaicos aos planetas pessoais, passam por esta fase de uma maneira tipicamente marciana. Aquelas crianças cujas mães não perceberam uma mudança comportamental significativa possuem um Marte geralmente em domicílio e posicionado em casas cadentes ou sucedentes."

Para quem nunca fez um mapa e não conhece a linguagem astrológica, darei algumas dicas, aqui, sobre esse trecho.

- O retorno de Marte acontece quando Marte volta ao local exato em que estava no nascimento da criança. Isso acontece por volta dos dois anos.
- Ter "um Marte forte" significa que esse planeta se sobressai no mapa em questão. Exemplo de Marte forte: Marte angular. No momento em que a criança nasceu, Marte cai em cima de um dos ângulos do mapa, que, grosso modo, podem ser compreendidos como a aurora, o crepúsculo, o zênite (meio-dia) e o nadir (meia-noite). Em qualquer destas posições, Marte tem uma força no mapa.
- O "domicílio" de Marte encontra-se nos signos de Áries e de Escorpião, pela astrologia tradicional (Escorpião passou a ser regido por Plutão, depois da descoberta deste planeta). Marte é o deus da guerra, da assertividade, da força, da energia e, por isso, se encontra "em casa" no signo de Áries. E, Escorpião, apesar de ser um signo de água, tem, também afinidade com Marte, pela energia, vigor e determinação que se pode observar.
- Marte encontra-se exaltado no signo de Capricórnio. A metáfora que uma professora minha usa, é: Marte em Áries está de tênis e bermuda (à vontade), enquanto Marte em Capricórnio está de paletó e gravata. A energia está concentrada buscando chegar ao topo da montanha.
- Marte está em exílio no signo de Libra. Libra é o signo que tenta conciliar, apaziguar, sempre levando o outro em consideração, isso seria contrário ao que Marte, à vontade, faria: tomar, ele mesmo, a iniciativa. Num caso assim, compreende-se porque se tornaria mais tenso o retorno de Marte. A criança vai tomar iniciativas, mostrar sua vontade e as pessoas, ao seu redor, não estão acostumadas com isso...
- E, ainda nas dignidades, Marte está em queda no signo de Câncer. Câncer é um signo de água, bem diferente da energia (fogo) de Marte. Marte em Câncer pode deixar essa energia retida, por deixá-lo mais emotivo e até defensivo.
- Os aspectos ptolomaicos são os aspectos maiores: conjunção, sextil, trígono, oposição e quadratura. Os planetas pessoais são, sobretudo, Sol e Lua, mas também entrariam Mercúrio e Vênus. Sol representaria a consciência e a vitalidade; Lua, a emotividade, sentimentalidade; Mercúrio, a fala, a comunicação; Vênus, a afetividade. Seria uma fase "marciana" temperada, dependendo da ligação com algum desses planetas.
- Em astrologia, temos os signos, os planetas e as casas. Casas significam a parte mais prática do mapa e dividem-se em Angulares, Sucedentes e Cadentes. Elas corresponderiam a um ritmo e parece que, se Marte não está angular, mas está presente em uma casa angular, isso também o coloca no patamar do retorno visível.




quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Terrible Twos – O temido primeiro retorno de Marte

Um mapa sempre nos dá uma orientação. O mapa natal não é diferente, é uma ferramenta muito importante para ajudar aos pais e cuidadores a conhecerem aquela pessoinha que acabou de chegar, o ilustre bebê recém-nascido.

Sobre astrologia infantil, encontrei o texto de Cá Roman sobre o primeiro retorno de Marte que acontece por volta dos dois anos.

"Sabe aquele anjinho fofo e calminho que acabou de nascer? Um dia ele vai completar dois anos e você se perguntará – Onde foi que eu errei? O que aconteceu para que meu filho super educado e obediente se transformasse nessa máquina de birra e teimosia?

Muitas mamães e papais quase enlouquecem quando, por volta dos 18 meses, aquela doce criança passa a desafiá-los e a fazer os tão conhecidos escândalos. Esta idade marca o primeiro retorno de Marte, quando o bebê descobre as emoções e inicia sua luta pela independência.

Marte retorna ao ponto em que estava no mapa de nascimento a cada 22 meses aproximadamente, mas o primeiro é geralmente um dos mais significativos. Marte é o planeta da agressão, auto-afirmação, coragem e energia. Quando Marte realiza seu primeiro retorno, ele pode acionar o comportamento marciano nos pequenos. Aquele bebê pequenino e plácido de repente começa a apresentar explosões comportamentais, As cenas parecem combinadas entre eles de tão semelhantes entre si. Algumas crianças apóiam firmemente as pequenas mãos nos quadris enquanto os pés sapateiam, outras se jogam no chão, esperneiam e estapeiam o ar, outras acham interessante bater com a cabeça na parede ou até mesmo no chão, e a palavra preferida é o "não". "Não!" Esta é a primeira afirmação do comportamento assertivo da criança, o reconhecimento de que Marte tem o poder para conseguir o que Vênus quer.

A recusa de se comportarem de maneira adequada, ir para a cama quando está na hora, comer o que está na frente deles, são esforços da criança na primeira noção de que ela tem o seu próprio poder. Tal como acontece com qualquer Ariano ou marciano, o controle da energia, moderação e paciência são aprendidos em cada um dos sucessivos retornos de Marte. Na idade de 14 anos ou 15, é a nossa primeira experiência combinada de retorno Solar e de Marte, ou seja, ambos planetas estão retornando à sua localização no mapa natal pela primeira vez desde o seu nascimento simultaneamente. Esta combinação de agressividade com energia individual marca o início de um novo período de rebelião, a adolescência. Mas isso já é uma outra história.

O primeiro retorno Marte se torna um grande foco de energia para algumas crianças, especialmente aquelas que têm um Marte forte no mapa natal. Em uma pesquisa que está sendo desenvolvida, 40 mapas de crianças de ambos os sexos já foram analisados. Percebeu-se que aquelas que possuem um Marte angular, em exílio, ou fazendo aspectos ptolomaicos aos planetas pessoais, passam por esta fase de uma maneira tipicamente marciana. Aquelas crianças cujas mães não perceberam uma mudança comportamental significativa possuem um Marte geralmente em domicílio e posicionado em casas cadentes ou sucedentes.

É importante, como pais, compreender a razão pela qual estas mudanças estão acontecendo com seu pequeno. Este é o primeiro passo, de muitos, que eles dão na busca da independência. Como você lida com estas primeiras tentativas, irá influenciar fortemente o modo como irão empreender sua independência no futuro.

Marte, no mapa representa a nossa capacidade de afirmarmo-nos, é a nossa iniciativa e dinâmica na vida. Quando ele inicia a segunda viagem através do mapa, já existe um ponto de referência e, por isso, a criança se sente agora mais confiante em fazer reivindicações e ser mais afirmativa, e até mesmo agressiva em algumas crianças. Marte representa o nosso espírito competitivo assim como é um fator importante na nossa capacidade física e desportiva. As crianças geralmente se tornam mais coordenadas e sua atividade motora bruta melhora enormemente.

Uma criança muito ativa e que está passando de maneira marcante por esta fase, pode se beneficiar muito com a introdução de alguma forma de atividade física. Isto, além de ser uma boa maneira de gastar o excesso de energia, introduz alguma disciplina na utilização dos comportamentos mais agressivos. Atividades como ginástica, natação, atletismo e lições de dança são saídas positivas para esta energia excedente.

Crianças bem tratadas nesta fase conseguem se expressar melhor e são mais autoconfiantes do que aquelas que foram ignoradas ou que perceberam que a agressão é a melhor maneira de obter atenção. Nesta fase, a criança necessita se sentir confortável e segura para expressar suas necessidades e desejos, mas também precisa saber se expressar adequadamente. É muito importante que a criança, ao expressar suas necessidades, esteja sendo ouvida e reconhecida. Elas precisam saber que, mesmo quando se sentem indefesos e confusos, alguém está ali por elas e para elas, que alguém continuará a cuidá-las e a amá-las."

Cá Roman é astróloga especializada em Astrologia Infantil.

http://www.cnastrologia.org.br/regionais_sc.php

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Um pouco de história...

Pra começo de conversa...

Comecei a estudar astrologia no Rio de Janeiro, enquanto fazia um curso de pós-graduação em filosofia no Rio de Janeiro. Escolhi uma escola ótima, com excelentes professores, onde fiz bons amigos. Alguns professores me incentivaram a concorrer com um trabalho para o Congresso Internacional de Astrologia do Sinarj que acontece anualmente no Rio de Janeiro. Topei o desafio, eu ainda era iniciante na astrologia, mas o tema favorecia: "Astrologia e Interdisciplinaridade".
Meu texto foi selecionado, tirei 2º lugar, o que me deixou feliz e ansiosa ao mesmo tempo, já que todos no evento eram astrólogos, e eu, ainda era estudante...
Na época, resolvi falar de dois temas pelos quais sou apaixonada: Nietzsche e Astrologia.